Um Viaduto com Dupla Paternidade
A suspensão do Concurso das Auto-estradas do Centro que englobava o polémico viaduto sobra a Mata Nacional do Choupal podia e devia ter sido entendido como uma oportunidade para repensar o traçado do IC2 em Coimbra. Eis que, durante a campanha eleitoral para a Câmara Municipal de Coimbra, as candidaturas do PS e do PSD, lideradas respectivamente por Álvaro Maia Seco e Carlos Encarnação, reafirmam a sua firme vontade de o concretizar tal como fora previsto anteriormente. Atendendo ao facto de Àlvaro Maia Seco ser o autor confesso do projecto, ou, por outras palavras, “o pai do viaduto” e Carlos Encarnação o político que abraçou esta solução aberrante, portanto, “o pai adoptivo”, só espero que Coimbra não corra o risco de assistir a uma espécie de “caso Esmeralda”.
A estratégia dos dois candidatos é reduzir a questão do viaduto a uma mera questão de rede viária com solução única; há, porém, que perceber o contexto mais alargado, porque a questão do viaduto não se resume apenas a um problema de tráfego que urge resolver. Há vida para além das estradas. A questão do viaduto no Choupal é, em primeiro lugar, uma questão de identidade de Coimbra. O Choupal não é um propriamente um baldio, o Choupal é património cultural, natural e histórico de Coimbra e é assim que deve ser tratado: preservado na totalidade. Em segundo lugar, e ao contrário do que é afirmado pelos dois candidatos, que não devem ter lido as conclusões da Comissão de Avaliação do Estudo de Impacto Ambiental que chumbou o viaduto, a mata será gravemente afectada. O Choupal, que nos últimos trinta anos já perdeu mais de 20% do seu território, corre agora o risco de ver a sua área reduzida em mais 5%. O Choupal ficará exposta a impactos significativos e permanentes de poluição sónora e atmosférica vinda do viaduto/autoestrada que distará pouco mais de 300 metros do Bar do Choupal. A tal “área periférica” do Choupal- é assim que os dois candidatos se referem aos 4 hectares que estão dispostos a sacrificar- tem servido como um tampão contra a poluição oriunda da Ponte Açude, fazendo aquilo que se designa como “efeito de margem”. Trata-se também do único verdadeiro acesso pedonal à mata para quem quer aceder ao Choupal a partir do centro da cidade, ou seja, da verdadeira porta de entrada do Choupal. Por fim, a questão do viaduto é, claramente, uma questão política. Mais de dez mil cidadãos, maioriamente de Coimbra, assinaram uma petição contra um viaduto no Choupal e pediram aos responsáveis políticos que estudassem alternativas. Como é possível fazer tábua raza da vontade de um número tão significativo de cidadãos?
Carlos Encarnação e Álvaro Maia Seco, mais uma vez em sintonia, acenam, como já é hábito neste tipo de casos, com medidas de compensação e requalificação do Choupal e da sua área envolvente. Carlos Encarnação e Álvaro Maia Seco, no fundo, pretendem “trocar pulmão por rins” (talvez mais um pouco de cérebro até desse jeito...) Mas, ao contrário do que estes candidatos afirmam, é precisamente o viaduto que inviabiliza qualquer requalificação séria do Choupal e da sua área envolvente. É bom, a este propósito, lembrar que a Ponte Açude aguarda uma escada de peixe adequada há mais de 30 anos – uma medida de compensação prometida à época.
Resta agora saber quem dos dois candidatos irá cortar a fita de inauguração do viaduto (espero que seja no Dia de São Nunca à Tarde) e reclamar para si a paternidade.
P.S. E se alguém se candidatasse à Câmara de Nova Iorque propondo um viaduto sobre o Central Park? Só mesmo em Portugal....
Miguel Dias


